Política

Moraes apagou mensagens a Vorcaro, mas condenou Débora pelo mesmo motivo

O ministro conversou com o então dono do Master por meio de mensagens de visualização única, que se apagam automaticamente ao serem lidas

Alexandre de Moraes, ministro do STF - 17/12/2025 | Foto: Rosinei Coutinho/STF
Alexandre de Moraes, ministro do STF — 17/12/2025 | Foto: Rosinei Coutinho/STF

O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes utilizou, no julgamento de Débora Rodrigues dos Santos, uma suposta exclusão de mensagens de celular como fundamento para condená-la por pintar uma estátua com batom durante os atos do 8 de janeiro.

Entretanto, informações apuradas pela Polícia Federal (PF) mostram que o próprio magistrado recorreu a mensagens de visualização única, que desaparecem automaticamente ao serem lidas, ao se comunicar com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, que tinha ordem de prisão iminente.

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No voto contra Débora, Moraes afirmou que a conduta atribuída à ré indicaria tentativa deliberada de ocultar provas. Segundo ele, o fato de não haver conversas no período investigado seria “a demonstrar desprezo para com o Poder Judiciário e a ordem pública”.

debora do batom
A cabeleireira Débora dos Santos, durante o 8 de janeiro — Praça dos Três Poderes, Brasília (DF), 8/1/2023 | Foto: Reprodução/Redes sociais

Moraes baseou-se em um relatório da PF sobre o celular de Débora. O documento, contudo, não concluiu que mensagens foram efetivamente apagadas. Limitou-se a registrar que “não foram encontradas conversas relevantes nos aplicativos de mensagens WhatsApp sobre os assuntos que concernem o objeto das investigações” e que havia interrupção de diálogos de dezembro de 2022 até a primeira quinzena de fevereiro de 2023.

A própria análise técnica da PF ressalvou tratar-se apenas de uma possibilidade: “Isto pode ser um indício de que Debora dos Santos tenha apagado do seu telefone os dados relevantes referentes ao período das manifestações antidemocráticas”.

Apagar mensagens é argumento seletivo de Moraes no STF
Trecho da decisão de Moraes que condenou Débora dos Santos | Foto: Reprodução/STF

Apesar do caráter hipotético da observação, Moraes tratou a ausência de mensagens como elemento incriminador no julgamento.

Moraes mandou mensagens de visualização única a Vorcaro

Informações publicadas pela jornalista Malu Gaspar, do jornal O Globo, revelam que Moraes enviou a Vorcaro mensagens de “visualização única”, isto é, que se apagam assim que o destinatário as lê, o que impede a preservação do conteúdo.

Moraes apagou mensagens a Vorcaro, mas condenou Débora pelo mesmo motivo
Histórico de conversas entre Vorcaro e Moraes | Foto: Reprodução/O Globo

Dados obtidos pela PF a partir do celular de Vorcaro, apreendido com ele no momento da prisão, mostram que o ex-banqueiro prestava contas a Moraes sobre o avanço das negociações para a venda do Master e sugerem que ele também falou sobre o inquérito sigiloso que tramitava na Justiça Federal de Brasília e acabou por levá-lo à prisão.

O procurador-geral da República, Paulo Gonet, é responsável por avaliar a abertura de eventual investigação. Para opositores da atuação do ministro, o uso de mensagens que desaparecem automaticamente reproduz justamente o expediente que Moraes apontou como suspeito no julgamento de Débora dos Santos.

1 comentário
  1. jose luiz Corte
    jose luiz Corte

    Prisão é pouco para Moraes. Pelo que se está divulgando, ele usou e usa a justiça e o cargo em beneficio próprio e de terceiros. Obstrução de justiça, advocacia administrativa são apenas o começo e a ponta desse iceberg.