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Os porquês, as redes sociais e a nobre arte de não ler

10/02/2026 12:42 Pleno.News

Os porquês, as redes sociais e a nobre arte de não ler

Se a pessoa não leu o texto e ainda não sabe usar os porquês, aí a bagunça fica completa

Verônica Bareicha - 10/02/2026 09h42

Muitos porquês (Imagem ilustrativa) Foto: IA\Chat GPT

Sou uma apaixonada pela leitura desde que me entendo por gente. Talvez, por isso, eu sofra tanto nas redes sociais. Ler, hoje, virou quase um ato de resistência. Opinar sem ler, por outro lado, virou esporte coletivo.

E, se há algo que me incomoda profundamente, é o fato de as pessoas não lerem. Nesse quesito, costumo classificá-las em quatro grupos.

O primeiro é formado por aqueles que não leem porque não o sabem. Entendo e acho tristíssimo.
O segundo até lê, mas não compreende. Falta base, estrutura, repertório. Também é triste. De verdade. Mas o terceiro é o dos que não leem por pressa, preguiça ou porque acham desnecessário. Eles passam o olho, ignoram o texto e se detêm apenas nas “figurinhas”.

Mas foi nas redes sociais que descobri um quarto grupo; o mais fascinante de todos: o leitor que não lê, olha as figurinhas e interpreta com entusiasmo. Se o tema for político, então…

O fenômeno acontece assim: a pessoa bate o olho, pesca uma palavra solta e constrói mentalmente um texto paralelo, geralmente muito mais radical do que o original. A partir daí, está autorizada a reagir. Surgem os comentários indignados, os prints fora de contexto, as respostas atravessadas e, claro, eles… os porquês.

E, convenhamos, minha gente, se a pessoa não leu o texto e ainda não sabe usar os porquês, aí a bagunça fica completa. Aproveitemos, então, para relembrar.

Funciona mais ou menos assim:

Por que você está passando pano para o governador?

Não estou passando pano nenhum. Está escrito outra coisa…

Aqui entra o por que, separado e sem acento. Ele serve para perguntar. E pegue a dica: ele inicia perguntas, pode ser substituído por “por qual razão” ou “por qual motivo” e também pode equivaler a “pelo qual” e suas flexões. Beleza?

Há ainda o porque, aquele que explica ou justifica. Um clássico da língua. Mas, curiosamente, costuma ser usado não para explicar, e sim para acusar.

— Porque isso é música de progressista e esquerdista.

Veja: porque, junto e sem acento, ele explica ou justifica. Sempre que pudermos substituir por “pois” ou por “uma vez que”, por exemplo, é ele que usamos.

E quando aparece um comentário indignado, em caixa alta?

— VOCÊ APOIA O FLÁVIO POR QUÊ?

Aqui temos o por quê, separado e com acento, usado no fim da frase. É o porquê dramático. O mesmo das mães nervosas, dos professores exaustos e dos comentaristas exaltados que não chegaram ao terceiro parágrafo…

E, para fechar o ciclo com aparência de profundidade, alguém decreta:

O porquê desse site é absurdo!

Temos, então, o porquê, junto e com acento, substantivo, sinônimo de motivo. Ele vem com artigo, posa de sério e dá a impressão de que houve uma análise profunda. Mas, muitas vezes é só impressão mesmo…

A verdade é simples: os porquês não são difíceis. Difícil é competir com a leitura apressada, com a preguiça moderna e com a convicção absoluta de quem não leu, mas já tem opinião formada.

Percebo que nas redes sociais, as pessoas não querem entender; querem reagir. Não querem saber o que foi escrito; apenas confirmar o que já pensavam antes.

E assim seguimos: explicando os porquês, separando os grudados, acentuando os finais e torcendo para que, um dia, alguém chegue até aqui.

Porque, veja só, se tivesse lido até o fim, não estaria perguntando tudo de novo. E esse, talvez, seja o maior porquê de todos.

Verônica Bareicha ama palavras e letrinhas desde sempre. Há vinte e tantos anos atua como revisora, redatora e ghostwriter. É pós-graduanda em Jornalismo Digital pela FAAP; pós-graduada em Mercado Editorial pela PUC-Rio e graduada em Letras, pelo Unasp-EC. Deseja neste espaço compartilhar o amor e dicas da língua portuguesa de forma leve, bem-humorada e divertida.

* Este texto reflete a opinião do autor e não, necessariamente, a do Pleno.News.
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