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Daniel Vorcaro não tinha pudor em chamar seu sicário de "sicário". (Foto: Imagem criada utilizando Whisk/Gazeta do Povo)

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Sica era uma faca curta e curva, de lâmina discreta, usada no Império Romano em emboscadas. O homem que a carregava era o sicarius, ou seja, aquele que esconde a sica sob sua roupa, seu manto, mata de perto, na confusão, e some.

No século 1.º depois de Cristo, uma facção radical judaica adotou o nome e a técnica: os Sicarii se misturavam às multidões das festas religiosas em Jerusalém, golpeavam colaboradores do poder imperial e se dissolviam na massa como se nunca tivessem existido.

Em 2015, Denis Villeneuve estreou seu filme Sicario. Na primeira cena, uma cartela traduz a palavra e a filia à história dos zelotes judeus. A obra inteira é sobre como os instrumentos da subversão foram, com o tempo, absorvidos pelos poderes que pretendiam combater. O Estado americano usa métodos de cartel. O agente encoberto não sabe mais de que lado trabalha. A lei se aplica apenas onde e quando for conveniente.

A agente do FBI, vivida por Emily Blunt, passa o filme inteiro se perguntando: "isso é legal?" A resposta que recebe é sempre uma variação da mesma frase: estamos num tempo e lugar onde a lei não se aplica. Parece que a frase ainda está em cartaz.

O que me espanta não é que Daniel Vorcaro tivesse um sicário. É a honestidade de assumi-lo como tal

Em setembro de 2018, em Juiz de Fora, um homem se misturou à multidão de um comício, ocultou uma faca sob a roupa, se aproximou do candidato à Presidência e golpeou. A técnica foi idêntica à dos Sicarii do Templo de Jerusalém: uso de faca curta, massa humana como disfarce e proximidade física como arma. Adélio foi, no sentido mais literal da palavra, um sicário. A mando de mais alguém? Não sabemos. O mandante, se havia um, sumiu na multidão.

Fui lembrando de tudo isso ao ler as notícias da semana. As mensagens citadas pelo ministro André Mendonça ao ordenar a prisão de Daniel Vorcaro e parte de sua turma. Um banqueiro, seus operadores, e um homem apelidado de Sicário. 

Num país onde pelo menos R$ 40 bilhões somem com tanta facilidade, em que R$ 2,2 bilhões dormem confortavelmente na conta do pai de Vorcaro, onde seu helicóptero levou líderes partidários para assistir a corrida de Fórmula 1 e seu jatinho particular levou ministro do STF para assistir à final da Libertadores, um homem armado a soldo é quase o detalhe mais banal da história.

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Mas o que me espanta não é que Daniel Vorcaro tivesse um sicário. É a honestidade de assumi-lo como tal. Não chamou de “Segurança”. Não se protegeu em um anglicismo qualquer, como “Close Protection Officer”. Tampouco mascarou a função como se fosse um “Assessor de Risco”. Não, chamou de Sicário mesmo. Talvez seja essa a única coisa honesta em tudo isso.

Não sei que armas o sicário de Vorcaro usava. A sica talvez continue curta. O que sabemos é que o manto que a protege, hoje, parece ser uma toga de juiz. Resta saber se os guardiões do manto vão conseguir o que os Sicarii sempre souberam fazer melhor: sumir na multidão, misturando-se entre as vítimas ou parecendo ser daqueles que deveriam desmascará-los.

Já vimos esse filme antes, várias vezes. Sabemos como costuma terminar. O homem apelidado de Sicário morreu na prisão, teria se matado. Os Sicarii, quando capturados pelos romanos, também não tinham saída. A diferença é que os do século 1.º morreram acreditando em algo. O da Faria Lima recebia por Pix.

Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

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