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A rede o acalenta como colo de mãe. E ele lá, tomado mais pela melancolia do que pelo sono, aqui e ali tirando os olhos do livro para admirar um céu de poucas estrelas. De repente, batem à porta.
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De repente, batem à porta. Como assim? Hoje em dia ninguém mais bate à porta. Ainda mais de repente. Os porteiros são os coveiros da surpresa. E tem também a campainha, com seu aviso sinistro, sempre sinistro, que soa como prenúncio de uma conversa desagradável, sempre desagradável.
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Arrastando-se até a porta, ele se pergunta se é um vizinho em pânico, uma vizinha pedindo uma xícara de açúcar – ou um bandido muito educado, que se anuncia antes de barbarizar.
A porta se abre sem rangido porque esta não é uma história de terror.
Diante dele, de cabeça baixa, está um homem em andrajos. Não é, porém, um mendigo que talvez tivesse conseguido burlar o sistema de segurança do condomínio. Tampouco é a vizinha pedindo a xícara de açúcar. É ninguém menos o Espírito do Tempo que chegou sem avisar.
E aí? Tá curtindo?
— Ódio — disse, sem ódio. — Inveja e razão. Muita razão sem qualquer razão. Nervos à flor da pele e prazer. Insaciável, como sói. Guerra, toda a esperança depositada na guerra e na morte. Tragédia, violência. Já mencionei as mentiras? Mil e um dedos apontados: todos são culpados. Inclusive você. Principalmente você.
Ele entende aquilo como um pedido de ajuda. Os andrajos denunciam. Escancarando a porta, ele faz um gesto para o Espírito do Tempo entrar.
— Licença — pede e vai entrando.
Sem dizer nada, nosso anfitrião o conduz até o sofá, no qual o Espírito do Tempo se joga com o peso de dez mil guerras, vinte mil fomes e cem mil promessas falsas de retorno ao Paraíso.
O que será que vai acontecer daqui por diante?
— Água?
— Por favor.
O anfitrião volta com o copo d’água e se senta ao lado do intruso, se bem que a palavra aqui não se aplica, porque a porta foi voluntariamente aberta e tal. Como se fossem dois amigos que se reencontravam depois de muito tempo, os dois ficam em silêncio, cada qual buscando a melhor anedota para dar início à conversa.
Nada.
Mais nada.
Não. Nada ainda.
Pois é
Até que o Espírito do Tempo joga a cabeça para trás, como se morresse. O que evidentemente é impossível para um espírito. Dã. Ele só está exausto.
Eis então que o anfitrião, ansiando voltar para a rede e o livro, pega o Espírito no colo, surpreso com a leveza daquelas incoerências e contradições todas, e o deita na cama. Lá, despe-o dos andrajos e se surpreende mais uma vez, agora com a inocência daquela nudez quase angelical.
O Espírito do Tempo agora dorme. Shhhh. Ele estava mesmo precisando descansar. Vamos sair de fininho.
Na ponta dos pés, ele volta para a sala, pega o copo d'água vazio e o põe na pia. “O Espírito do Tempo. Quem diria? Se eu contar, ninguém acredita”, pensa ele, voltando para a rede e para o livro.
Tá acabando. Que pena ou oba?
Ele dorme.
Na manhã seguinte, ele vai até o quarto. O Espírito do Tempo não está mais lá. Da visita, só restam uns fiapos das vestes puídas, o copo d'água na pia, a lembrança das poucas palavras ditas e a certeza de que os amigos vão zoar da referência à nudez angelical do visitante inesperado. Faz parte.
— Ódio. Inveja e razão. Muita razão sem qualquer razão. Nervos à flor da pele e prazer. Insaciável, como sói. Guerra, toda a esperança depositada na guerra e na morte. Tragédia, violência. Já mencionei as mentiras? Mil e um dedos apontados: todos são culpados. Inclusive você. Principalmente você. Licença. Por favor.




