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Horas antes da prisão, Vorcaro falou a Moraes sobre salvar o Master

Conteúdo obtido pela PF mostra contato com magistrado durante tratativas para venda da instituição financeira

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Os registros mostram contatos ao longo de 17 de novembro de 2025, data em que agentes abordaram o banqueiro no Aeroporto Internacional de Guarulhos | Montagem: Revista Oeste/Reprodução/Redes sociais

A Polícia Federal (PF) encontrou no celular de Daniel Vorcaro uma sequência de mensagens enviadas ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), no mesmo dia em que o banqueiro acabou preso. A jornalista Malu Gaspar divulgou as informações nesta sexta-feira, 6, em sua coluna no jornal O Globo.

Os registros mostram contatos ao longo de 17 de novembro de 2025, data em que agentes abordaram o banqueiro no Aeroporto Internacional de Guarulhos.

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As mensagens indicam que o dono do Banco Master informava Moraes sobre negociações envolvendo a venda da instituição financeira e mencionava também um inquérito sigiloso que tramitava na Justiça Federal de Brasília. Gaspar teve acesso exclusivo a prints de nove mensagens enviadas por Vorcaro ao ministro entre 7h19 e 20h48 daquele dia.

Vorcaro e Moraes não trocavam textos diretamente no aplicativo. Cada um escrevia a mensagem no bloco de notas do celular, tirava um print e enviava a imagem no WhatsApp com a função de visualização única.

Por causa desse procedimento, as mensagens do ministro não permaneceram registradas no telefone do banqueiro. Já os textos escritos por Vorcaro continuaram salvos no aparelho.

Os horários das notas obtidas pela reportagem coincidem com os horários de envio das mensagens. Na maioria dos casos, o envio ocorria cerca de um minuto depois do salvamento da nota. Apenas uma mensagem apresentou diferença de seis minutos entre o registro e o envio.

Procurado pela coluna de Gaspar, Moraes afirmou em nota que não recebeu as mensagens citadas e classificou a informação como “ilação mentirosa no sentido, novamente, de atacar o STF”. A defesa de Vorcaro informou que não comentaria o caso.

Vorcaro relata negociação e teme vazamento

A primeira mensagem aparece às 7h19 da manhã. Nela, Vorcaro comenta a tentativa de “antecipar os investidores” em negociações relacionadas à venda do Master ao grupo Fictor.

O banqueiro afirma que poderia “assinar e anunciar ainda hoje uma parte” do negócio. Também menciona a possibilidade de viajar para tentar obter a assinatura de outros investidores estrangeiros.

“De um lado, acho que o tema de que falamos começou a dar uma vazada, obviamente sem qualquer detalhes”, escreveu, em seguida, mudando de assunto. “Mas a turma do BRB me disse que tá tendo um movimento de sacanagem no caso. E que a mesma jornalista de antes estava fazendo perguntas lá.”

Vorcaro acrescenta que um vazamento “será péssimo, mas pode ser um gancho para entrar no circuito do processo”. Ao final do texto, pede ao ministro: “Se tiver alguma novidade vamos falar”.

Investigação surge na imprensa, e defesa protocola petição

Segundo a PF, Vorcaro já demonstrava preocupação com o avanço do processo que poderia levá-lo à prisão.

Três horas depois da resposta de Moraes, às 11h08, o site O Bastidor publicou informação sobre um inquérito que corria na 10ª Vara Federal de Brasília. A reportagem mencionava investigação sobre uma fraude bilionária envolvendo a compra do Master pelo Banco de Brasília (BRB), mas não citava risco de prisão.

+ Leia também: “Não se intimide, ministro”, artigo de Augusto Nunes publicado na Edição 311 da Revista Oeste

A PF afirma que Vorcaro obteve detalhes do inquérito por meio de acesso ilegal aos sistemas da própria corporação. Em seguida, utilizou o site para divulgar a informação e “esquentar” o conteúdo.

Depois da publicação, a defesa do banqueiro protocolou uma petição ao juiz da Vara Federal, Ricardo Leite. O documento buscava impedir “medidas cautelares eventualmente requeridas”. A prisão, contudo, já havia sido determinada pelo magistrado às 15h29. A petição da defesa chegou ao tribunal às 15h47.

Horas mais tarde, Vorcaro voltou a escrever para Moraes. Às 17h22, informou que tentava preservar parte da operação de venda do banco. “Fiz uma correria aqui pra tentar salvar”, disse. “Fiz o que deu, vou anunciar parte da transação.”

Quatro minutos depois, enviou outra mensagem: “Alguma novidade? Conseguiu ter notícia ou bloquear?”. O ministro respondeu às 17h31 com mensagem enviada também no formato de visualização única.

Últimas mensagens antes da prisão

No início da noite, Vorcaro voltou a procurar Moraes. Às 20h04, enviou uma mensagem perguntando novamente se havia alguma novidade. O ministro respondeu em duas mensagens às 20h21 e 20h23.

Às 20h48, Vorcaro escreveu pela última vez naquele dia. Ele comentou o anúncio da negociação com o Fictor e afirmou que a transação ocorrera antes do planejado. “Seria melhor na sexta junto com os gringos mas foi o que deu pra fazer dentro da situação”. Na mesma mensagem, acrescentou: “Acho que pode inibir”.

O banqueiro também informou que no dia seguinte começariam movimentações relacionadas a André Esteves, dono do BTG Pactual. Além disso, destacou que viajaria para assinar acordos com investidores estrangeiros. Segundo a perícia da PF, Moraes reagiu apenas com um emoji de polegar levantado.

Pouco mais de uma hora depois, agentes da PF abordaram Vorcaro no Aeroporto Internacional de Guarulhos, por volta das 22h.

Vorcaro permaneceu preso por 11 dias. A desembargadora Solange Salgado, do Tribunal Regional Federal da 1ª Região, determinou sua soltura. A magistrada impôs medidas cautelares, entre elas o uso de tornozeleira eletrônica e a retenção do passaporte.

No entanto, na quarta-feira 4, o ministro André Mendonça, relator do caso no STF, determinou nova prisão do banqueiro.

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