Agenda verde
Mesmo quem apoia as "agendas verdes" pode deixar de tomar medidas ambientais se isso for uma imposição do governo, diz pesquisa. (Foto: Imagem criada utilizando o ChatGPT / Gazeta do Povo)

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Os apoiadores radicais da “agenda verde”, que sofreram baques sucessivos com a ascensão de conservadores na Europa e de Donald Trump nos EUA, têm agora mais um ponto contra seus ideais. E desta vez, a crítica vem com a chancela não só do bom senso, mas também da Ciência.

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Pesquisadores do Instituto Santa Fé, no estado americano do Novo México, provaram que a adoção de políticas climáticas que impõem mudanças bruscas de estilo de vida pode, ironicamente, enfraquecer os valores ecológicos das pessoas. E isso acontece mesmo entre aqueles cidadãos mais sensíveis às pautas ambientais. 

Mais do que isso: a pesquisa, realizada na Alemanha, mostrou que o sentimento de perda de liberdade provocado por essas políticas verdes radicais gera uma resistência muito maior do que as medidas restritivas adotadas pelos governos durante a pandemia de Covid-19. 

A explicação, segundo os pesquisadores Katrin Schmelz e Samuel Bowles, é que qualquer motivação própria de alguém para fazer o bem é drasticamente reduzida quando uma autoridade impõe essa mesma ação por força de lei. 

Por exemplo: conclusão pode ser aplicada a uma pessoa que cuida do seu próprio jardim por prazer e amor à natureza. A partir do momento que o governo cria uma lei que passa a obrigar essa mesma pessoa a cuidar das próprias plantas sob pena de multa de descumprimento, o prazer e o valor pessoal que ela sentia na atividade são substituídos por um sentimento de obrigação e ressentimento contra a autoridade. 

Rejeição às medidas climáticas está ligada às liberdades individuais 

A base da repulsa está intimamente ligada às liberdades individuais. O artigo afirma que as medidas de controle aplicadas por vários países durante a pandemia de Covid-19 enfrentaram uma “hostilidade incrível” por parte da população. Ainda assim, a obrigatoriedade de vacinação e do uso de máscaras, por exemplo, eram tratados pelas autoridades como “facilitadores de liberdade”: alguém vacinado ou usando uma máscara poderia, aos poucos, retomar a rotina. 

O cenário muda quando se trata da adoção forçada de um estilo de vida mais verde. Segundo os autores, fica difícil para uma pessoa aceitar que o governo pode limitar a temperatura de aquecimento de sua própria casa para reduzir o uso de combustíveis fósseis nas usinas de energia. Ou mesmo uma determinação, por meio de lei, proibindo o consumo de carne, como forma de ter uma vida mais saudável. 

Em outras palavras, as medidas restritivas na pandemia foram tratadas pelos governos como uma espécie de “mal necessário” temporário para recuperar a vida normal. Já as determinações das “agendas verdes” radicais são frequentemente percebidas como restrições permanentes e altamente invasivas. 

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Alternativas atraentes podem reduzir rejeição à “agenda verde” 

E o que fazer para que medidas realmente relevantes sobre o clima possam ser implementadas sem que o cidadão sinta que o Estado cruzou a linha e invadiu seu espaço pessoal de liberdade? A resposta não é simples, segundo os pesquisadores, e envolve um bom trabalho de design na criação dessas políticas. 

Ações mal planejadas podem fortalecer valores antiambientais e criar uma hostilidade generalizada que se estende para além do clima, atingindo governos e até a comunidade científica. O segredo, diz o artigo, está em criar medidas que sejam percebidas como eficazes, que não invadam a privacidade e que ofereçam alternativas atraentes ao comportamento que se deseja desencorajar. 

Um bom exemplo, segundo os autores, é a restrição de voos curtos na rede aérea da Alemanha. A medida não foi vista como invasiva pelos entrevistados na pesquisa porque eles contam com uma alternativa eficiente: a rede ferroviária alemã. 

“Ter opções ‘verdes’ mais atraentes do que comida vegetariana e formas alternativas de geração de calor é um passo crítico para aumentar os níveis de apoio e de concordância por parte da população. Isso pode ajudar a reduzir o sentimento de restrição de liberdade, que provoca essa aversão”, conclui o artigo. 

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