Frei Gilson foi criticado pelo padre Júlio Lancellotti
Frei Gilson tem sido um dos fenômenos do recente avivamento cristão no Brasil. (Foto: Daniel Xavier/Canção Nova)

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“Há no homem um abismo infinito que só pode ser preenchido por Deus.” (Blaise Pascal, Pensées)

Esta é ao mesmo tempo a minha primeira e a minha última coluna. Mas o leitor não carece de ficar alarmado. É a primeira de 2026, que começa precisamente hoje, e a última deste primeiro mês do novo ano, pois entro em férias agora no próximo dia 5 – um descanso mais que necessário, depois de um ano muito intenso, tanto do ponto de vista pessoal quanto político. Retomo a coluna em fevereiro e, nesse meio tempo, deixo-os com a presente reflexão sobre um fenômeno que, já detectado por intelectuais e formadores de opinião no exterior, parece ainda fora do radar da intelligentsia brasileira, embora a sua manifestação local seja particularmente digna de nota.

Refiro-me àquilo que Ayaan Hirsi Ali – intelectual nascida numa família muçulmana da Somália, depois convertida ao neoateísmo e, hoje, ao cristianismo – chamou de “avivamento cristão” em artigo para o The Spectator intitulado “Está em curso um avivamento cristão”, no qual celebrava o seu segundo Natal como cristã. O título desta coluna é, portanto, inspirado no de Hirsi Ali.

No artigo da The Spectator, Hirsi Ali descreve um movimento crescente de retorno à religião cristã no Ocidente, especialmente entre jovens, intelectuais e figuras públicas que antes se identificavam com o secularismo. Após décadas de declínio da prática religiosa e de confiança quase exclusiva em soluções pretensamente racionais, terapêuticas ou políticas, muitos passaram a reconhecer os limites do secularismo para oferecer sentido, coesão social e fundamentos morais duradouros. Ela observa que crises como o enfraquecimento da família, a solidão, o aumento da ansiedade e a radicalização ideológica criaram um terreno propício para essa reaproximação com a fé.

Esse diagnóstico, longe de se restringir a impressões subjetivas, encontra eco em uma série de trajetórias intelectuais e existenciais recentes, mapeadas por Peter Savodnik em um longo ensaio publicado uma semana depois no The Free Press, com o título “Como intelectuais encontraram Deus”. O que emerge desse levantamento passa longe de um simples modismo espiritual ou nostalgia romântica. Trata-se do reconhecimento tardio de que o projeto secular moderno, ao tentar erradicar o cristianismo da vida pública e da imaginação moral do Ocidente, acabou por gerar uma sucessão de substitutos espirituais muito mais agressivos, dogmáticos e desumanizadores, precisamente por se apresentarem como não religiosos.

Savodnik abre o texto falando do escritor Matthew Crawford, cujo percurso intelectual é bastante ilustrativo. Formado no coração da academia secular, seduzido em juventude pela crítica nietzschiana ao cristianismo e perfeitamente integrado ao ethos intelectual moderno, Crawford acabou descobrindo – não por via de argumentos abstratos, mas por meio de uma experiência concreta de comunidade, amor (sua esposa foi fundamental em sua conversão) e beleza – tudo aquilo que a modernidade lhe negara: a percepção de uma ordem moral objetiva que precede e julga o indivíduo. Ao contrário do que sugere o secularismo militante, sua conversão ao anglicanismo não representa uma capitulação da razão, mas o reconhecimento de seus limites.

Onde o cristianismo recua, não se instala o vazio, mas outras formas de religiosidade – mais ilusórias, mais violentas e menos conscientes de si mesmas

Esse padrão se repete, com variações, em outras figuras analisadas por Savodnik. O escritor irlandês Paul Kingsnorth, após transitar pelo ambientalismo radical, pelo budismo zen e pelo neopaganismo, encontrou na Ortodoxia cristã aquilo que nenhuma espiritualidade alternativa lhe oferecera: uma síntese entre criação, transcendência e sacrifício. Sua crítica à modernidade não é meramente política ou estética, mas ontológica. O mundo técnico, privado de referência ao Criador, torna-se incapaz de reconhecer o valor intrínseco do criado – e, em última instância, do próprio homem.

Aqui convém recordar algo que venho sustentando há anos: o problema do secularismo não é a suposta neutralidade religiosa, mas o fato de que, justamente, ele nunca é neutro. Onde o cristianismo recua, não se instala o vazio, mas outras formas de religiosidade – mais ilusórias, mais violentas e menos conscientes de si mesmas. O chamado “neoateísmo”, como argumentei em outra ocasião, funcionou menos como superação da religião do que como sua deformação gnóstica: a promessa de salvação pelo conhecimento, pela técnica e pela ciência.

E o neoateísmo não foi a única Ersatzreligion surgida no século 21, o século que, de acordo com as previsões dos teóricos da secularização, deveria ser definitivamente livre de toda crença religiosa. Como têm sugerido autores como James Lindsay, Jean-François Braunstein e John McWhorter, entre outros, o wokismo, com seu moralismo maniqueísta, seus rituais de confissão pública, sua obsessão com pureza identitária e seu impulso punitivo, tem todo o aspecto de uma seita secular. Sua lógica é sacrificial, e seus bodes expiatórios são escolhidos segundo critérios sempre mutáveis, definidos por comissários ideológicos investidos de uma autoridade moral autoconcedida. Que Osama bin Laden tenha sido o primeiro terrorista woke chegou a ser sugerido pelo jornalista britânico Brendan O’Neill.

Também Peter Thiel, leitor atento de René Girard, percebeu com clareza esse mecanismo. Nos últimos anos, Thiel tem defendido fortemente o cristianismo, não tanto em termos culturalistas (como começou a fazer, por exemplo, o próprio Richard Dawkins), mas como quem reconhece no Evangelho a única revelação capaz de desarmar a violência mimética que estrutura tanto as sociedades arcaicas quanto os totalitarismos modernos. O cristianismo revela a inocência da vítima e, ao fazê-lo, torna ilegítima toda política fundada no sacrifício ritual de grupos inteiros.

“Deus tem algum tipo de plano para a história”, disse Thiel em maio de 2024, em entrevista a um pastor em uma antiga igreja. “Talvez seja um plano oculto; um plano secreto. Ele tem um plano para a sua vida.” Nas palavras de Savodnik:

“Foi um momento notável: um dos deuses do Vale do Silício, que durante muito tempo argumentou que a tecnologia poderia curar a morte, agora dizia que havia um único Deus verdadeiro – e que os seres humanos eram humanos: limitados, mortais, à mercê de forças maiores.”

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Mesmo figuras menos teologicamente informadas, como Elon Musk, parecem intuir esse problema. Sua crítica recorrente ao que também chama de “religião woke” e sua defesa cada vez mais explícita de princípios cristãos não decorrem, por óbvio, de um tradicionalismo nostálgico, mas da constatação empírica de que o secularismo progressista degenerou numa pseudo-ortodoxia, coercitiva, moralista e puritana. Ao tentar impor uma moral absoluta sem Deus, o wokismo acaba por absolutizar o poder humano – exatamente aquilo que o cristianismo sempre recusou.

“Na verdade, sou um grande defensor dos princípios do cristianismo”, disse Musk a Jordan Peterson, em entrevista realizada em julho de 2024. Dias depois, ele ainda publicaria no X o seguinte comentário: “A menos que haja mais coragem para defender o que é justo e correto, o cristianismo perecerá”.

Creio que um elemento importante de geopolítica contemporânea influencia nessa avaliação de figuras como Thiel, Musk, Hirsi Ali e o próprio Dawkins, fundador do neoateísmo e hoje autoproclamado “um cristão cultural”, a saber: o contraste entre o cristianismo e o islamismo jihadista. Assim como o wokismo, o islamismo é uma religião política por excelência, que não reconhece distinção entre esfera espiritual e poder temporal, exigindo submissão integral e legitimando a violência em nome de uma causa supostamente redentora. O cristianismo, ao contrário, funda-se na distinção radical entre Deus e César – distinção que, como admitiu o historiador ateu Jacques Le Goff, está na origem do laicismo ocidental, e sem a qual não há liberdade de consciência, nem limitação do poder, nem a possibilidade de uma política que não seja totalitária.

Nesse sentido, o retorno ao cristianismo observado por Savodnik deve ser compreendido como um movimento de lucidez civilizacional. Depois de experimentar as promessas do progresso ilimitado, da engenharia social e da autodivinização do homem, muitos começam a reconhecer que a tradição cristã não era o obstáculo ao florescimento humano, mas a sua condição de possibilidade. Não porque ofereça soluções fáceis, mas porque apresenta uma antropologia realista: o homem é digno, porém ferido. É livre, mas dependente da graça. Foi chamado à verdade, mas se mostrou incapaz de alcançá-la por esforços próprios.

No Brasil, esse movimento de retorno assume uma forma ainda mais eloquente, justamente porque ocorre à revelia – e muitas vezes contra a hostilidade aberta – das ditas “elites” culturais, acadêmicas e midiáticas. Enquanto a intelligentsia nacional permanece fixada em categorias envelhecidas, tratando o cristianismo como resíduo folclórico ou instrumento de dominação, cresce fora de seus salões um interesse real, visceral e nada extemporâneo pela fé cristã, especialmente entre jovens. Não se trata de um cristianismo diluído, terapêutico ou “progressista”, moldado para agradar sensibilidades contemporâneas, mas de uma busca deliberada por doutrina, ascese, liturgia e autoridade espiritual.

O cristianismo retorna não como relíquia do passado, mas como tradição viva, capaz de lembrar, com sobriedade e firmeza, que a liberdade humana só sobrevive quando o absoluto não é sequestrado pelo misticismo político e/ou científico

O caso de frei Gilson é emblemático nesse sentido. Transformado em alvo de campanhas de difamação, acusações grotescas e patrulhamento ideológico, o frade tornou-se, paradoxalmente, um dos principais catalisadores desse despertar religioso. Sua popularidade – sobretudo entre jovens – não decorre de concessões ao espírito do tempo, mas precisamente do contrário: da clareza doutrinal, da linguagem direta e da serena recusa em submeter a fé cristã aos filtros moralistas do progressismo identitário. A reação histérica que provoca diz menos sobre ele do que sobre o desconforto profundo que o cristianismo ainda desperta quando ousa falar em voz própria.

O que está em jogo aqui não é o frei Gilson enquanto indivíduo, muito embora suas qualidades e dons pessoais obviamente importem. O fato socialmente relevante é que a sua presença pública desmonta uma narrativa cuidadosamente construída segundo a qual a religião só pode ser tolerada se permanecer confinada ao âmbito privado, domesticada e inofensiva. Quando um sacerdote católico fala de pecado, conversão, sacrifício e verdade objetiva – e ainda por cima atrai multidões –, ele expõe o caráter pseudorreligioso da ortodoxia dominante, que exige submissão total, mas não oferece transcendência, perdão ou esperança.

É justamente aí que, a despeito da incapacidade de nossas classes falantes e (supostamente) pensantes de apreender o fenômeno, o paralelo com o fenômeno internacional descrito por Savodnik se torna evidente. Assim como no caso de Peter Thiel ou Jordan Peterson, o objeto endereçado por figuras como frei Gilson não está ligado a uma nostalgia irracional, mas à percepção difusa de que algo essencial foi perdido. Num país corroído por uma pedagogia do ressentimento, por uma política que se alimenta do conflito permanente e por uma cultura que absolutiza desejos e identidades tribais, o cristianismo reaparece como aquilo que sempre foi: uma escola de realidade.

Nesse sentido, o que se observa no Brasil não é um simples conflito cultural episódico, mas um choque entre duas concepções de mundo incompatíveis. De um lado, variações de uma religião política que promete redenção pela linguagem, pela técnica e pela vigilância moral. De outro, uma tradição espiritual milenar que afirma, com estonteante serenidade, que o homem não se salva a si mesmo – e que toda tentativa de o fazer termina em tirania.

O historiador Niall Ferguson (aliás, marido de Ayaan Hirsi Ali) disse certa vez que a tradição religiosa cristã “fornece imunidade ética contra as falsas religiões de Lenin e Hitler”. O interesse crescente por figuras como frei Gilson sugere que muitos brasileiros, especialmente os mais jovens, começam a intuir essa verdade fundamental.

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Se há, portanto, um avivamento cristão também em curso no Brasil, ele não se dá com a bênção das elites nem sob os holofotes da grande mídia. Ele acontece nos interstícios, nas paróquias cheias, nas redes sociais, nos confessionários e nas conversões silenciosas. E talvez seja justamente por isso que incomode tanto: porque lembra – num país saturado de falsas promessas políticas feitas por autoridades atoladas em corrupção e garantias meramente nominais fornidas por instituições pestilentas – que a verdadeira renovação nunca começa pelo poder, mas pela alma.

Se há, realmente, um avivamento cristão em curso, ele não nasce do medo, mas do reconhecimento. Reconhecimento de que nenhuma ideologia pode substituir Deus; de que nenhuma técnica pode redimir o homem; e de que toda tentativa de construir o paraíso na terra termina, invariavelmente, em coerção e mentira. O cristianismo retorna não como relíquia do passado, mas como tradição viva, capaz de lembrar, com sobriedade e firmeza, que a liberdade humana só sobrevive quando o absoluto não é sequestrado pelo misticismo político e/ou científico.

Talvez seja essa lembrança, ao mesmo tempo simples e exigente, que explique por que tantos, depois de terem acreditado em quase tudo, começam agora a voltar-se novamente para a fé que moldou a civilização que ainda tentamos compreender – e, quem sabe, preservar. E ninguém descreveu tão bem o significado desse retorno, desse avivamento, como G. K. Chesterton em Ortodoxia:

“Eu sou o homem que com a máxima ousadia descobriu o que já fora descoberto antes (...) Como todos os outros menininhos pomposos, tentei colocar-me à frente de meu tempo; e descobri que estava 1.800 anos atrás. Forcei minha voz com penoso exagero juvenil ao proferir minhas verdades. E fui punido da maneira mais adequada e engraçada, pois mantive as verdades: mas descobri, não que não eram verdades, mas simplesmente que não eram minhas. Quando imaginei que estava sozinho encontrei-me de fato na ridícula posição de receber o apoio de toda a cristandade (...) Tentei fundar uma heresia só minha; e quando lhe dei o último acabamento descobri que era a ortodoxia.”

Com isso, despeço-me temporariamente de meus leitores, desejando a todos um ótimo ano novo, prenhe de realizações e, sobretudo, de sentido. Que 2026 nos traga novidades, desafios, surpresas, amadurecimento, deslumbramento e tudo o mais que provenha da vontade divina. Mas que nós o recebamos fortes e serenos, com a mente aberta – não a ponto de permitir a queda do cérebro, como também diria Chesterton – e os pés fincados na terra firma da ortodoxia.

Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos